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Passados quase 20 anos, eis que de novo volto a Marraquexe. Na primeira vez tratou-se de uma caminhada pelas montanhas do Atlas, integrado num grupo de jovens aventureiros que percorreram a pé cerca de 140 quilómetros e culminaram no segundo monte mais alto de África, o monte Toubkal, com 4088 metros de altitude.

Desta vez foi bem diferente. A Olívia, nossa estimada amiga e vizinha, convenceu-nos a alinhar numa excursão familiar que juntou 13 companheiros, quase todos maduros, em busca de descanso, conforto e mais sabedoria: o Tó-Mané (exímio e experiente organizador de excursões), a Amélia, a Isabel, o João, a Ana, o Vasco, o António, a Judite, a Céu, o José, a Olívia, a Manela e é claro, este escriba. Todos muito amáveis e simpáticos. Assim dá gosto viajar!


A viagem

A viagem foi confortável. O voo direto TP1452 que, no dia 31/12/2016, levou apenas 1:15 h a chegar ao Aeroporto Internacional de Menara, moderna infraestrutura que acolhe mais de 4 milhões de passageiros e é o segundo maior de Marrocos. Menara deixa-nos uma sensação muito agradável pela amplidão dos recintos, pelas linhas harmoniosas das instalações e sobretudo pelos espaços ajardinados que o circundam com palmeiras e catos de várias espécies. O regresso, no dia 04/01/2017, foi mais incomodativo porque houve um atraso de cerca de 3 horas devido ao nevoeiro que se fazia sentir em Lisboa, perturbando toda a navegação aérea.
O Alojamento
Ficámos alojados no Hotel Radisson Blu na Avenida Mohamed V, uma das artérias mais movimentadas da parte nova da cidade, denominada Gueliz. O hotel de cinco estrelas era bastante bom mas houve alguns aspetos burocráticos indesejáveis. Exemplos: o “check-in” demorou quase tanto como a viagem de avião; o sistema de chave eletrónica para abrir a porta nem sempre funcionava; a distância dos elevadores aos quartos era demasiado longa; e no fim ainda tivemos que pagar uma taxa adicional inesperada de 228,80 Dh. Como dados positivos há a salientar a boa dimensão dos quartos e das respetivas casas-de-banho (nunca estive num hotel com uma casa-de-banho tão completa e espaçosa), a simpatia dos funcionários que todos os dias vinham trazer duas garrafas de água mineral e sobretudo, os “buffets” dos ricos pequenos-almoços: sumos naturais de laranja feitos na altura, irrepreensível tábua de queijos, frutos secos deliciosos, pão saboroso, chás e cafés a contento e tudo o mais que se possa imaginar.


O “Réveillon”
Foi no restaurante Libzar, situado a umas centenas de metros do hotel. Ficámos os 13 numa mesa retangular ao pé da lareira, separados dos outros comensais. O “Menu de la Saint Sylvestre” era “à grande e à francesa”. Cada iguaria estava artisticamente decorada. Antes de saborearmos devíamos fotografar. Depois de termos deglutido cinco acepipes, contando com o champagne inicial, chegou a tão esperada meia-noite e o pessoal divertiu-se dançando modas berberes. A seguir vieram ainda o “Médaillon de Coquelet” mais a “Farandole de délices festifs”, mas os estômagos já estavam demasiado cheios. A música gravada estava muito alta e barulhenta como convém e os mais idosos (como este pobre cronista) não aguentaram a pedalada. Mas foi divertido!


Marraquexe no geral
A cidade fica num vale, é plana, não tem mar, nem sequer um rio. Foi construída pelos Almorávidas no século XI. Os Saadianos dominaram-na no século XVI e no fim do século XVIII foi a vez dos Aluitas. Em 1912 tornou-se protetorado francês até à declaração de independência de Marrocos em 1956. Quando na Europa se estuda a História Universal passa-se “como cão por vinha vindimada” pela evolução destes nossos vizinhos que, um pouco discriminadamente, chamamos mouros ou árabes. Pouco sabemos da sua História e das suas histórias. E no entanto, no que aos Portugueses toca, flagelámos o litoral de Marrocos e conquistámos cidades a ferro e fogo. De tal maneira que os soberanos ostentavam o cognome de “reis de Portugal e dos Algarves daquém e dalém mar em África”. Após a loucura do jovem Sebastião que arrastou o seu grupo com pesadas armaduras para pelejar, aqui na região, pela canícula do mês de agosto a fim de “alargar a fé e o império”, tudo se desmoronou. Ficaram apenas cisternas e muralhas … pedras. Segundo o cicerone que nos acompanhou quando visitámos os túmulos saadianos, a seguir à estrondosa vitória de Alcácer Quibir a religião muçulmana ainda mais se consolidou.
História à parte, Marraquexe é hoje uma cidade atrativa, a mais turística do país. As cores vermelhas ou avermelhadas são o tom dominante nos edifícios e no solo constituído por greda ferrosa. A parte antiga (medina) encontra-se cercada por uma grossa estrutura amuralhada embora esburacada. Os becos e ruelas são estreitos e sombrios. A cidade nova, Queliz, é, no entanto, dotada de largas avenidas, edifícios modernos e espaços arborizados com laranjeiras, tamareiras, alfarrobeiras (Marrocos é o 2º produtor mundial de alfarroba. Sabiam?) e outras árvores bem cuidadas. Culturalmente os franceses, em menos de meio século, lograram imprimir marca indelével através do seu idioma, considerado a segunda língua, bem presente nos estabelecimentos comerciais, nos hotéis, nos sinais de trânsito e na comunicação com os turistas. Certos vendedores falam espanhol e outros (raros) até balbuciam frases em português.


Praça Djemaa el Fna
É sem dúvida o “ex libris” desta cidade milenar pela sua extensão, pela concentração de gente que aqui vem para vender e para comprar de tudo e mais alguma coisa, para ver malabaristas e encantadores de serpentes, jogar ou petiscar. Passear pelo suk (mercado) de Marraquexe que começa nesta praça e se prolonga por ruelas apinhadas de gente e de trânsito em dois sentidos com carroças puxadas por burros e homens, bicicletas, motorizadas e carrinhos de bebés, não pode ser em grupo. As milhentas atrações apelam à dispersão. Por quatro vezes fizemos a pé o percurso que distava do nosso hotel cerca de dois quilómetros e meio. É, de facto, um local fascinante e obrigatório para quem visita Marraquexe.
Mesquita da Koutoubia
Só a vimos por fora para não perturbar as orações dos crentes. Está geminada com a Giralda de Sevilha pela sua semelhança.

Palácio Bahia
Este sumptuoso palácio, hoje com áreas algo degradadas, foi mandado construir por um vizir nos fins do século XIX com numerosos apartamentos para satisfazer as suas muitas esposas. Ficaram na retina a beleza dos mosaicos das paredes e do chão, os arabescos decorativos dos tetos e os pequenos jardins de ligação entre os salões com laranjeiras, toranjeiras, palmeiras, hibiscos. Foi neste palácio que se instalou principescamente o Governador francês aquando da ocupação em 1912.


Palácio Al-Baddi

Esta enorme edificação foi mandada construir pelo sultão Ahmed al Mansour após a vitória obtida em Alcácer Quibir em 1578. Possuía 360 divisões que hoje se encontram, quase todas em ruínas. Era aqui que o sultão dava as suas festas e recebia os dignitários em audiências solenes. Na parte central havia um espaço retangular de 135 por 110 metros com solos rebaixados plantados de laranjeiras. Subindo por uma escadaria chegamos ao miradouro onde se divisa um magnífico panorama da cidade em todas as direções. Nos pontos mais elevados das muralhas dezenas de cegonhas aprimoravam os seus ninhos. De notar ainda uma curiosa exposição temporária com fotografias dos anos vinte do passado século mostrando como era aprovisionada e gerida a água nos pomares e hortas que abasteciam a cidade.


Túmulos Saadianos
Atravessando o bairro judeu cheio de lojecas, chegamos a um dos locais mais sagrados e curiosos de Marraquexe. É um cemitério do século XVI com mausoléus decorados por azulejos de várias cores e elevações consoante a importância dos defuntos. Fomos acompanhados por um guia que nos foi explicando em detalhe as particularidades do sítio. Aprendemos que a cor azul significava sabedoria e que a amarela correspondia a poder. Os arabescos das paredes dispostos em triângulos entrelaçados tinham também a sua lógica. Foi colocada uma grossa divisória para proteger o recinto dos invasores e só em 1917 os franceses redescobriram a necrópole pois a primitiva mesquita já tinha sido destruída. Em 1603 grassou a grande peste nesta região que levou à morte cerca de 2 milhões de pessoas. O próprio Ahmed El Mansour foi uma das vítimas e o seu mausoléu com cúpula de cedro dourado e 12 colunas de mármore de Carrara é admirável. Disse-nos o guia que o mármore foi trocado por cana-de-açúcar à razão de 1 kg por 1 kg. Que grande negócio! Nos espaços ajardinados que dividiam os mausoléus predominavam tufos de manjericões, ervas aromáticas destinadas a repelir os insetos.


Madrassa Bem Youssef
Trata-se de uma escola antiga em regime de internato onde estudavam e se alojavam jovens não residentes na cidade. As celas onde dormiam e estudavam eram minúsculas. Para além do estudo da filosofia, astronomia, caligrafia, história e matemática (não esqueçamos que os povos muçulmanos eram, na Idade Média, os que atingiram maior nível cultural e científico), as madrassas tinham como principal missão a defesa da ortodoxia religiosa. Abundavam, portanto, os locais de culto, como o tanque das abluções revestido a azulejos que nos foi dado ver. Registamos, contudo, a degradação progressiva de muitos soalhos e paredes, agravada pelo grande número de visitantes.


Jardim Majorelle
Bastante afastado da Medina visitámos este jardim considerado obrigatório para quem vem a Marraquexe. É apodado de jardim botânico, mas comparado com outros nossos conhecidos, deixa um pouco a desejar, por ser muito pequeno. Tem, de facto, algumas raridades provenientes de várias partes do mundo (Brasil, Perú, Argentina, Bolívia, Equador, México, Califórnia, Texas, Austrália, Japão, China, Java, Canárias, África do Sul, Madagáscar …) totalizando cerca de 300 plantas. Lamentavelmente não encontrei na livraria majorelle nenhum livro de botânica o que me deixou desgostoso. Anote-se, todavia, que o jardim, embora de reduzida dimensão, é luxuriante. Destacam-se as palmeiras, entre as quais a Phoenix dactylifera, a Phoenix reclinata, a Washingtonia robusta e ainda a Bismarckia nobilis, a Butia capitata, a Lycas microzamia, a Clivia miniata, o Agave angustifolia, o Agave sisalana, a Phyllostachys aureosulcata, a Euphorbia canariensis, a Opuntia robusta, a Opuntia tomentosa, a Oreocereus fossulatus, a Bauhinia purpurea, a Hedera helix, a Ceratonia síliqua, para além de cactáceas, bambus, ciprestes, yucas, buganvílias, etc.
Realce ainda para a livraria, já mencionada, o restaurante, a sala de exposições e o museu de arte islâmica, que não deu para visitar. Num recanto do jardim pode ver-se o Memorial de Yves Saint Laurent, famoso costureiro de moda francês (embora tivesse nascido em Oran) que muito enriqueceu a flora deste espaço paradisíaco.


Arredores de Marraquexe
No penúltimo dia da visita saímos em duas viaturas em direção ao vale de Ourika, apreciando a paisagem circundante e vendo ao longe as montanhas do mítico Atlas cobertas de neve. Fizemos uma primeira paragem numa casa berbere onde nos serviram azeite, manteiga, mel, pão e “chá“ de hortelã com uma folhinha de losna. A família que nos recebeu era muito simpática e podemos ver a cozinha, os quartos de dormir, o forno, o almofariz e os utensílios campestres. Seguimos depois pela estrada paralela ao “Assif Tifnoute” (creio não estar errado; “assif” significa ribeiro em berbere), cujo leito estava cheio de pedras de todos os tamanhos. Viam-se com frequência pequenas pontes atamancadas que acediam a restaurantes na margem oposta. Era nitidamente um percurso turístico.
Na vila de Setti Fatma tivemos uma surpresa que nos abriu o apetite para o almoço. Tratou-se duma subida bastante íngreme ao longo do ribeiro que descia em caprichosas cascatas. O caminho era pedregoso, a princípio com rochas graníticas e mais acima com pedras basálticas que se tornavam escorregadias. Não consegui evitar de molhar um pé e ficar com as meias e os ténis completamente encharcados. Subimos bastante acompanhados por simpáticos berberes. Um deles auxiliou a Manela em todo o percurso a subir e a descer e ela sentiu-se orgulhosa pela façanha. Ladeando o caminho havia muitos vendedores de lembranças e petiscos: frutos secos, objetos de barro, de couro, de madeira e de pedra. Alguns montaram um sistema de arrefecimento dos refrigerantes (aqui não há cervejas) com uns pequenos moinhos que giravam através da água corrente, borrifando as garrafas. Chamavam-lhes frigoríficos berberes. Outros vendiam medronhos em cestinhos artesanais. As nogueiras, já despidas de folhagem, eram as árvores predominantes neste circuito.
Almoçámos ao ar livre comida típica berbere, principalmente cuscuz e tagine.
O passeio continuou por terras mais áridas e de raro arvoredo. Notámos que os solos estavam preparados para as sementeiras e provavelmente seriam irrigados pelas águas de uma barragem que se via ao longe. Parámos noutra pequena aldeia em que as casas eram de adobe (barro misturado com palha). Mais uma vez saboreamos as azeitonas e o chá de hortelã e molhamos o pão no azeite enquanto presenciávamos uma típica cena campestre - o duelo interminável entre um galo-da-índia e um peru. Já se faziam apostas mas viemos embora sem saber quem teria sido o vencedor.


“Herboristeries”
O que mais me surpreendeu em Marraquexe foi a grande quantidade de ervanárias não só no suk, mas também em toda a cidade e mesmo nas aldeias por onde passámos. Constatámos que há aqui muito mais ervanárias e estabelecimentos de medicinas complementares do que farmácias. Daí veio-me à memória um estudo da Organização Mundial de Saúde do fim do passado século, referindo que 80% da população mundial recorre às plantas para os seus cuidados primários de saúde. Confesso que na altura achei um pouco exagerado mas o que vi em Marraquexe tende a confirmar tal asserção.
Para um etnobotânico que se preze, viajar por estes sítios é maravilhoso. A profusão de cheiros e cores e a gama de utilizações atribuídas às milhentas mezinhas deixa-me extasiado. Peço já perdão e paciência aos leitores que não estão para aqui virados.
Numa ervanária na rua bani marine, muito perto da praça Djemaa el fna, contei mais de 400 frascos de dois litros cada, contendo diversas substâncias curativas. Houve, é claro, uma demorada preleção, experimentações e massagens e no fim o pessoal lá comprou alguma coisa dentro das numerosas especiarias, cremes, pomadas, perfumes, óleos, essências e tisanas existentes
Fiquei verdadeiramente apaixonado pelo argão, árvore só existente numa parte árida de Marrocos, cujos frutos proporcionam um óleo que resolve todos (ou quase todos) os problemas de saúde. Adquiri o livro “L’Huile d’Argane, or vert du Maroc”, comprei a pomada, o óleo para as massagens e o óleo alimentar e fiquei com umas castanhas (sementes). Logo que possa, redijo uma croniqueta específica sobre esta curiosa planta.


Alimentação
O Islão não permite comer carne de porco e ingerir bebidas alcoólicas. Isso para mim não constitui qualquer problema. Adaptei-me lindamente à comida berbere com muitas especiarias e pouco sal. Os pratos mais populares são as tágines e os cuscuz com inúmeras variações. O melhor tágine que comi (em termos de preço e qualidade) foi no “Chez Abdou Rachid et sa Maman”, restaurantezinho sito numa praceta do suk. No fim tivemos que esperar um pouco para efetuar o pagamento. O muezzin tinha apelado para a tradicional oração do anoitecer e o senhor que nos atendeu ausentou-se para rezar.
O pior sítio onde comemos (aliás não chegámos a comer) foi no “Comptoir”, um restaurante muito fino que nos tinham recomendado para a janta do último dia. À entrada fomos apalpados por via de alguma bomba que pudéssemos acarretar. O ambiente estava escurecido e havia muita gente. Demorou bastante tempo até nos indicarem uma mesa. Passados alguns minutos vieram as ementas, depois vieram os talheres, depois os copos. Entretanto, vinha um friozinho desagradável que a todos incomodava, principalmente a Amélia. Pedimos para resolverem o problema mas não resolveram. Entretanto veio o vinho que até nem era mau. O tempo a passar e a paciência a esgotar. Acabámos por sair muito insatisfeitos, tomámos um táxi e às 23 horas jantámos comida francesa no “Grand Café de la Poste”, muito perto do hotel.

E pronto! Muito se escreveu, mas decerto muito mais haveria a dizer; porém, a paciência dos leitores tem limites. Fica apenas este simples lamiré como hipotético esboço auxiliar, para quando, daqui a mais 20 anos, voltarmos a Marraquexe.

Janeiro de 2017
Miguel Boieiro

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